O ano de 2026 começa consolidando um cenário que mescla grandes oportunidades com uma pressão competitiva sem precedentes.
As empresas familiares brasileiras estão em movimento: crescem, diversificam seus portfólios, atraem o olhar de investidores globais e enfrentam sucessões cada vez mais complexas.
Tudo isso em um ambiente onde tecnologia, riscos cibernéticos e exigências de capital humano atingiram um novo patamar de rigor.
Nesse contexto, gestão e governança deixaram de ser conceitos teóricos de manuais para se tornarem as principais alavancas de continuidade do negócio.
- No Brasil, onde cerca de 90% das empresas possuem perfil familiar e sustentam a maior parte dos empregos e do PIB nacional, o desafio da longevidade é real.
Estatísticas indicam que apenas 30% dessas organizações sobrevivem à segunda geração e menos de 10% alcançam a terceira.
- O motivo? Majoritariamente a ausência de planejamento sucessório e de estruturas formais de governança.
Embora pesquisas internacionais apontem que as empresas familiares brasileiras têm apresentado um crescimento robusto, muitas registrando aumentos de receita em dois dígitos nos últimos anos, uma parcela significativa ainda carece do básico estrutural: conselhos ativos, acordos societários robustos e mecanismos eficazes de resolução de conflitos.
Em suma: o resultado financeiro está presente, mas a base institucional permanece frágil. É exatamente este o ponto de inflexão para 2026.
Por que priorizar gestão e governança agora
Ao observarmos o ecossistema empresarial brasileiro, o quadro é nítido: a maioria das organizações é de origem familiar e carrega o peso do desenvolvimento regional. Contudo, a baixa taxa de sobrevivência até a terceira geração deve-se, quase sempre, a conflitos de interesse entre sócios, sucessões mal planejadas e uma centralização excessiva de decisões em figuras históricas.
Paralelamente, o movimento das companhias abertas serve como bússola: a adesão às recomendações do Código Brasileiro de Governança Corporativa cresce anualmente. Em 2024, essas empresas já atendiam, em média, a dois terços das boas práticas sugeridas. Em 2025, esse índice de aderência média subiu de 67% para aproximadamente 68%, demonstrando que o mercado exige cada vez mais transparência e rigor.
Quem está sob o escrutínio da bolsa de valores já ajustou suas velas. Já entre as empresas de capital fechado, a realidade é heterogênea: convivem negócios extremamente sofisticados e outros que, apesar do alto faturamento, operam sem conselhos ativos ou planos de sucessão formalizados.
Na minha trajetória à frente da Metha Consultoria, ao longo de mais de duas décadas em projetos com empresas familiares do agronegócio, indústria e serviços, vejo diariamente essa encruzilhada: resultados admiráveis, mas pouca proteção estrutural para garantir a perenidade. É essa necessidade de blindagem que torna a governança o tema central de 2026.
Tendência 1: profissionalização da gestão em empresas familiares
A profissionalização em 2026 não significa afastar a família, mas organizar papéis com precisão. O foco está em separar a propriedade da gestão, garantindo que a empresa seja tratada como um ativo de mercado e não apenas uma extensão do sobrenome. Isso envolve:
- Clarificar fronteiras: definir com clareza os papéis de sócio, conselheiro e executivo.
- Institucionalizar decisões: migrar discussões estratégicas da informalidade para fóruns formais e qualificados.
- Estruturar conselhos: implementar conselhos consultivos com pautas rigorosas e métricas de acompanhamento.
Quando essa separação ocorre, o fundador foca onde gera mais valor e os sucessores ganham um mapa claro de desenvolvimento, profissionalizando o ambiente de forma sustentável.
Tendência 2: gestão e governança com foco em sucessão contínua
Em 2026, a sucessão deixou de ser um evento isolado para se tornar um processo contínuo. A ausência de planos para posições críticas expõe a empresa à tríplice crise em momentos de perda: o luto emocional, o vácuo de liderança e a insegurança societária. A governança moderna exige:
- Mapeamento de talentos: identificar posições-chave e sucessores com antecedência.
- Critérios técnicos: estabelecer réguas objetivas de preparo, como formação e experiência externa.
- Protocolos familiares: consolidar acordos de acionistas com regras claras de conduta e sucessão.
Essa preparação contínua, especialmente em setores como o agronegócio, preserva a estabilidade e reduz drasticamente o espaço para conflitos destrutivos entre gerações.
Tendência 3: riscos, tecnologia e IA no centro da agenda
A agenda de riscos expandiu-se além do financeiro, colocando a segurança de dados e a Inteligência Artificial (IA) no topo das prioridades. Com mais de 80% dos líderes vendo a IA como amplificadora de riscos cibernéticos, a responsabilidade tecnológica migrou definitivamente para a mesa do Conselho. Os pontos centrais são:
- Exposição de dados: proteção rigorosa de segredos industriais e dados sensíveis.
- Supervisão de IA: uso estratégico de ferramentas automatizadas com supervisão ética e técnica.
- Governança digital: antecipação de crises tecnológicas para proteger o valor de mercado.
Conselhos de empresas de todos os portes agora precisam deliberar sobre políticas de IA e gestão de riscos de terceiros para garantir a resiliência digital.
Tendência 4: ESG exige coerência entre discurso e prática
O conceito de ESG atingiu a maturidade e o mercado não aceita mais relatórios superficiais. A pressão agora vem das cadeias de suprimentos: grandes players do agronegócio e da indústria exigem de seus fornecedores práticas verificáveis. Os requisitos mínimos incluem:
- Estruturas de governança: transparência nos processos decisórios.
- Políticas socioambientais: práticas que reflitam compromissos reais e mensuráveis.
- Indicadores não financeiros: monitoramento sistemático do impacto socioambiental.
A governança estratégica em 2026 é o que sustenta a agenda ESG, transformando o que era burocracia em organização básica da casa e diferencial competitivo.
Tendência 5: cultura de dados e métricas de maturidade
O uso de métricas para avaliar a própria governança consolidou-se como prática elementar. Ferramentas de diagnóstico permitem que as empresas comparem sua evolução e evitem decisões baseadas em percepções subjetivas. Os benefícios são nítidos:
- Evidências na gestão: decisões pautadas em dados, não em palpites ou emoções.
- Indicadores integrados: monitoramento conjunto de dados financeiros, operacionais e de governança.
- Assertividade estratégica: redução do risco de decidir às cegas, garantindo que o crescimento seja ordenado.
Sem rituais de acompanhamento e indicadores confiáveis, qualquer avanço se torna frágil diante da volatilidade do mercado.
O que sua empresa pode fazer em 2026
Para avançar, o caminho exige ações estruturantes e disciplina:
- Diagnóstico: identificar onde estão os gargalos atuais na tomada de decisão.
- Separação de instâncias: definir o que pertence à família, à sociedade e à gestão.
- Fortalecimento de processos: implementar rituais de acompanhamento e metas claras.
- Amadurecimento de conselhos: criar fóruns consultivos focados no futuro do negócio.
- Sucessão permanente: desenvolver herdeiros e lideranças sob critérios técnicos.
- Governança de riscos: integrar a cibersegurança e a IA às pautas da alta administração.
Ao longo de mais de 20 anos na Metha Consultoria, aprendemos que as empresas que prosperam são as que escolhem um caminho claro, respeitam seus combinados e mantêm a disciplina.
Gestão e governança em 2026 não são luxos, são as condições básicas para proteger o patrimônio, honrar o legado e preparar o terreno para as próximas gerações.
Marcia Correa
Fundadora da Metha Consultoria – Consultora em Gestão Estratégica e Governança em Empresas Familiares.
